sexta-feira, 30 de julho de 2010

Monólogo

[Cena 1: Fade in. Céu azul, sem nuvens, manhã. A câmera desce e mostra um imenso gramado verde, com algumas árvores esparsas. A câmera se aproxima lentamente de uma delas. Na sombra, um homem está sentado escrevendo. Ouve-se a voz do narrador:]
“Meu conhecimento a respeito de tudo o que julgo saber é um tanto quanto desconhecido. Ah, o que quero mesmo dizer é que não sei nada vezes nada, essa é a verdade. (‘A’ verdade? Hum... conflitei agora!)
Mas não é o que sei ou deixo de saber que faz a diferença para mim. Nada do que sei pode dizer alguma coisa a meu respeito, exceto meu QI talvez - o qual não deve ser dos melhores.”
[Close no rosto do homem. Ele pára de escrever por um instante, arqueia uma das sobrancelhas e segue escrevendo. A câmera abre. Enquanto segue-se ouvindo a narração, percebe-se que ele esboça um meio sorriso em algumas partes, e acena a cabeça em outras, enquanto segue para o desfecho de seu texto.]
“Porém, é o que sinto que faz toda a diferença. São as experiências que tive que me são caras a ponto de moldarem muitos de meus comportamentos. Se faço xixi no banho, por exemplo, não é porque sei que isso contribui para que uma descarga a menos economize alguns litros de água potável no mundo. Faço isso porque sinto o dever de fazer alguma coisa para minimizar o impacto do homem na natureza. Meu impacto, para ser preciso. Sinto nisso uma espécie de obrigação. Eu vi ao vivo a destruição, o que faz com que me sinta no dever de ajudar. O saber interfere, mas não define. O jogador de futebol sabe bater numa bola, mas não é isso que define se acerta ou não uma cobrança de pênalti; é seu estado emocional que faz com que ele erre.
Eu sei pouco, escrevo pouco e falo menos ainda; mas sinto muito. No entanto, seria mais louco do que me considero se deixasse que apenas sentimentos e emoções me guiassem. Não... minha razão é o poder moderador que regra as confusões internas. Sinto que quero fazer, mas sei que não devo fazer. Sei que devo fazer, mas sinto que não quero fazer. O que farei então?”
[O homem morde a ponta da caneta, seu olhar pensativo preso ao infinito, indeciso. Fade out.]