terça-feira, 17 de agosto de 2010

Nos meus olhos...


Ele ficou me encarando. Ali, imóvel. Não, não era o espelho, era apenas uma foto.
Uma foto minha.
Me encarando, enquanto me julgava, condenando-me um sem-número de vezes por muitas coisas que fiz ou deixei de fazer. Por frases ditas e silêncios moribundos. Recriminando-me por tudo o que eu era, sou e hei de tornar-me um dia.
Ele apenas ficou ali. Uma imagem congelada no tempo. Alguém que já morreu há séculos atrás. Um vampiro. Um natimorto. Um aborto da natureza. E ele não pára de me olhar...
Mas eu também o olho. E o vejo. E percebo muitas vidas, muitas mortes. Muitas esperanças e muitas derrotas. Está tudo ali, naquele olhar castanho, daqueles mais comuns que alguém pode ter. E percebo como ele é tudo e nada ao mesmo tempo. Talvez ele seja um morto-vivo, à espera de me devorar o cérebro através de meus sentimentos. Esperando para desferir palavras mudas, carregadas de dor e malícia, que só ele tem.
Mas ele é assim. Eu não. Eu me mudei.
E já não estou mais aqui...