segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O Dia 'D' de Selene

[ADVERTÊNCIA: O conteúdo a seguir é impróprio para menores]
Selene estava cansada de sua vida. Pensava que tinha razões de sobra para isso. Não se sentia amada, não se sentia valorizada, não se sentia livre. Não se sentia viva. Os dias eram sempre iguais, e ela dava graças a Deus quando eles terminavam. Sozinha, não encontrava conforto para suas dores em nada e em ninguém. Também não achava que possuía amigos, apenas conhecidos. E a maioria (ou quase todos) eram do trabalho. E era no trabalho, também, que estava o maior de seus problemas.
Ela havia se mudado há tempos para a cidade grande para trabalhar, vindo de uma situação pobre, mas nunca poderia imaginar que sairia daquilo para uma situação de morte. Era isso, afinal, que sentia: sentia-se morta. Não porque o seu patrão a obrigava a praticar sexo oral nele diariamente, mas sim por não ter forças para lutar contra nada e ninguém. Nada e ninguém. Nada. Ninguém. Era isso.
E no momento em que todos os seus sonhos pareciam-lhe ideias idiotas produzidas por outra pessoa, resolveu colocar um fim em seu próprio sofrimento. Acordou pela manhã, certa de que seria seu último dia. Tomou seu café com gosto - uma última refeição digna para uma moribunda. Pegou a lotação para o trabalho. Chegou ao seu destino quase animada e excitada com aquilo tudo, e era irônico que a expectativa da morte a fizesse sentir-se mais viva. Viva como há muito tempo não se sentia.
- Selene, poderia vir à minha sala por um instante?
Era seu chefe. Seu patrão. Seu algoz.
E seria provavelmente o fim de tudo.
Selene entrou cabisbaixa na sala de seu chefe. Como de costume, todas as persianas estavam fechadas. Logo que entrou ouviu o clique da chave atrás de si. Ajoelhou-se, como sempre. O sujeito gorducho, com a barba por fazer e cheirando a azedo postou-se na sua frente. Com gestos rápidos abriu o zíper das calças e pôs o pênis para fora. Selene olhou para o pequeno e flácido genital do homem, e então para seu rosto. Ele pareceu se assustar com aquilo - ela nunca o havia encarado antes. Ela abriu, então, a boca, e começou a fazer aquilo que sempre fazia.
Ela chupou-lhe o melhor que podia, aguardando o momento certo. Então, quando sentiu-o enrijecer em sua boca, sentiu uma explosão de adrenalina derramando-se por todo o seu corpo, e despejando-se em seus maxilares. Foi então que Selene cerrou seus dentes com toda a força que tinha. Imediatamente sentiu um líquido morno escorrer de sua boca - sangue. E não só o líquido era diferente do que o de costume, como também a sensação. Era tudo novo.
Em meio aos berros, o homem desferiu-lhe um golpe em cheio no queixo. Ela foi jogada no chão pela violência do impacto, e, ao cair, cuspiu fora o pedaço do homem dilacerado e provavelmente algum de seus próprios dentes. Mas não importava: havia acontecido. Aquela mulher moribunda que a olhava no espelho todos os dias - apática e sem vida - havia, finalmente, morrido.
Uma nova mulher estava a caminho.

[Ps: Pensei três vezes antes de publicar este texto. Por fim, prevaleceu a ideia de que este espaço é meu, e faço com ele o que quiser. ;)]