domingo, 4 de abril de 2010

O Conto de Carolina

Carolina estava na cozinha. Picava alguns legumes para o almoço. Usava uma faca de lâmina grande, o que lhe causava arrepios. Parecia bobagem, mas não era. Fazia quarenta anos que ali, naquela mesma casa, havia acontecido uma tragédia. Um homem misterioso entrou, no meio da noite, e matou quase todos na casa usando uma faca semelhante àquela. A única sobrevivente havia sido uma garotinha de sete anos de idade, chamada Carolina.
O assassino havia entrado, camuflado pela noite sem luar, e passado de quarto em quarto, usando sua faca. Silenciou cada hóspede desavisado que dormia sua última noite de sono. Ao todo foram dezessete mortes no casarão da família, e as vítimas eram nada mais nada menos que todos os parentes de Carolina, ao menos os próximos. Seus pais, seu irmão, sua irmã, seus tios e primos. Após a matança, não contente em destruir todos, ele espalhou um galão de gasolina pela casa e ateou fogo.
Carolina não conseguiria ser precisa ao tentar explicar como havia escapado. Ela lembrava de estar dormindo com seus pais no quarto de hóspedes, no andar térreo. Lembrava da luz do fogo que vinha de toda a parte, e de tentar fugir daquilo tudo. Quando se deu por conta, já estava do lado de fora da casa, na rua, que estava repleta de gente, atraída pela casa que pegava fogo, iluminando a noite seu luar.
Agora aquela senhora, de quarenta e sete anos, estremeceu mais uma vez com a faca na mão. Lembrou as noites sem fim em que esperava que o assassino voltasse para terminar o serviço. E lembrava que, depois de um tempo, passou a desejar que acontecesse.
Com o tempo, foi tocando a vida, até que descobriu o amor. A vida foi ficando mais fácil, a família foi acontecendo novamente em sua vida. Ela e o marido decidiram reconstruir a antiga casa, e as sombras do passado nunca mais a tinham atormentado. Ao menos era isso que os outros pensavam. No fundo, a sombra nunca a deixara. As feridas nunca haviam se fechado completamente.
Sozinha, fazendo o almoço para o marido e o filho mais velho, que voltariam do trabalho, e o filho mais novo, que chegaria da escola, ela sussurrou consigo mesma, como fazia de costume:
- Eu queria que você visse que todo o mal que você me fez não foi o suficiente para me destruir. Eu ainda estou aqui. Ainda viva. Vitoriosa.
Como acontecia às vezes, sentiu como se alguém fosse lhe responder. Sentiu como se o assassino estivesse há alguns metros atrás dela, escutando. Não eram raras as ocasiões em que ela se sentia assim, e esses pensamentos a faziam arrepiar.
Mas desta vez aconteceu algo diferente, ela ouviu uma respiração pesada assim que parou de falar, algo como um suspiro rouco. Perplexa, ficou paralisada, desejando que fosse apenas o seu marido que chegava mais cedo do serviço. Mas não era.
- Eu estou aqui. - disse uma voz serena e rouca atrás dela.
Sim, era ele. Não havia dúvidas. O coração pareceu parar de bater, a respiração parou, o corpo não mais lhe obedecia. Finalmente, as preces que fazia quando menina seriam atendidas. Ele havia voltado para terminar o serviço. Com dificuldade, ergueu a cabeça, e, ao olhar para frente, viu o reflexo de um homem na janela da cozinha.
- Eu pensei muitas vezes em vir atrás de você, - disse o reflexo do homem na janela - e em terminar o que comecei naquela noite.
O sangue, que parecia ter desaparecido há instantes atrás, subiu à sua cabeça. Involuntariamente sua mão cerrou-se em volta da faca que segurava. Antes mesmo de perceber ou pensar fazer qualquer coisa, já estava virada de frente para o seu carrasco, fitando-o com os olhos marejados de lágrimas. Lágrimas que eram em parte tristeza, mas na maior parte ódio e rancor. As feridas, enfim, estavam todas abertas.