domingo, 6 de janeiro de 2013

Assistindo Dexter


Para quem não está familiarizado, Dexter é uma série norte-americana (canal Showtime ou FX no Brasil) sobre um assassino (que dá nome à série) que mata assassinos. Ou seja, ele é um assassino em série com um código: matar apenas aqueles que ‘merecem morrer’. É um código dado a ele por seu pai, que era um policial.
Um código.
Esse código é como uma ética distorcida. Seu pai sabia que ele era um assassino, um psicopata. Por ser policial, soube desde que Dexter era jovem, ainda criança, que ele era diferente, e o protegeu. Ensinou-o a forjar sentimentos e enquadrar-se na sociedade. E mais ainda: ensinou-o os métodos de identificação de criminosos, para que Dexter pudesse encobrir todas as suas pistas e nunca ser capturado pela polícia, enquanto identificava e matava criminosos em Miami.
Durante sua vida, Dexter sabe o que é – um monstro. 
Posso estar exagerando aqui, mas eu acredito que, se pensarmos bem, todos somos um pouco “Dexters”. Temos um código que nos permite vivermos em paz e temos monstros adormecidos em nosso interior. Ah, sim, talvez nenhum de nós (assim eu espero) tenha matado alguém com uma lâmina cortante, mas somos capazes de maiores atrocidades sem nem ao menos precisarmos usar qualquer tipo de arma. Bastam apenas palavras, gestos, olhares e sentimentos – e pronto: podemos destruir alguém da pior forma que há: de dentro para fora.
E a parte interessante desta pseudoconstatação é que, tal como Dexter, todos temos um código. Um código de ética deturpado que nos permite fazer aquilo que é errado como se fosse o caminho mais certo e lógico a tomar. Ou você pensa que um político que rouba ou um motorista que dirige embriagado está fazendo uma coisa errada? Talvez sim do ponto de vista legal, mas não do ponto de vista de suas éticas deturpadas. Sempre há uma justificativa superior à lei. É o certo, e apenas eu posso dizer aquilo que é certo para mim. Não pode a sociedade ou leis fazerem o serviço de minha consciência. Ainda mais numa sociedade com valores invertidos, com leis compradas, feitas por legisladores corruptos. Sim, todos temos códigos – cada um o seu. “Aqui não precisa usar cinto de segurança”, “não há nada mal em se levar uma vantagenzinha aqui ou ali”, “o juiz não viu”, “ninguém vai ficar sabendo”...
Meu ponto de vista é que, em geral, as pessoas não fazem aquilo que julgam ser errado; antes elas se justificam criando argumentos plausíveis (ao menos no ponto de vista delas) para suas condutas erradas. Mas o que é o certo? E o que é o errado? Podem as leis dizerem aquilo que é certo ou errado? Pode alguém que não seja você saber?
Vejamos, matar é errado, mas se for em defesa própria, então é certo. Furto é crime, mas se você furtar um pão para que seu filho não morra de fome, então é certo. Se furtar um salame junto, aí continua sendo errado. Temos leis para nos dizer aquilo que é certo e errado; e temos juízes para condenar aqueles culpados por fazerem aquilo que é considerado errado. Mas há justiça?
Então é isso. Para vivermos em paz basta ajustarmos nossa ética à da sociedade e domesticarmos os monstros que dormem no interior de nossas almas atormentadas.