sábado, 20 de fevereiro de 2010

Óculos do Paraíso (parte I) (ou Loucura pouca é bobagem!)



Fui ao paraíso e voltei. Voltei para poder contar a todos que lá é bem melhor que aqui. Mas, como era de se esperar, não voltei o mesmo. Tampouco sou outra pessoa diversa da que sempre fui; apenas me foi dado o direito de ver com olhos que não são meus. Ou será que são? Não sei... funcionam como lentes de um óculos perfeito, mas poderia também afirmar com certeza que eu estava de óculos antes, e agora apenas me foi dado o direito de tirá-los. De qualquer forma, não é esta a minha maior dúvida, e sim outra: quando usar estas lentes especiais? Já tentei usar o tempo inteiro, mas minha visão começa a falhar e perco os sentidos com muita facilidade quando isso acontece. Assim descobri que devo guardá-las para apenas alguns momentos, mas quais seriam eles?
Talvez eu esteja fazendo-me a pergunta errada. Vou por partes para não me perder, se isso for possível.
- Como funcionam estes óculos especiais? - perguntei eu a mim mesmo.
- Não sei se são óculos, mas são como lentes. Sim, acho que lentes! - respondi sem saber se estava falando a verdade. Senti que precisava enrolar a conversa para ganhar mais tempo para pensar no assunto.
- Tudo bem! Óculos, lentes, seja lá o que for... como funciona? - perguntei novamente, um pouco de ansiedade na voz.
- Sinto que tudo fica mais bonito quando olho através delas [das lentes]. O céu nublado vira o dia mais bonito do mundo, e as pessoas mais mal humoradas me fazem bem. Acho que é algo assim. - na verdade, eu não sabia mesmo...
- Certo, e você já conseguiu ficar quanto tempo sem tirar essas lentes?
- Difícil dizer... a um tempo atrás, logo que voltei do paraíso, quando descobri que tinha o poder de usá-las, coloquei e fiquei um tempo sem tirar. Só que foi desagradável...
- O que aconteceu? - havia uma curiosidade verdadeira na voz.
- Com o passar do tempo, parece que elas foram “sujando”, e logo eu via como antes de colocá-las, só que com um desconforto maior, anormal.
- Interessante, mas bem estranho...
- Sim! Não é que as coisas voltavam a ser como antes, mas era como se eu não me importasse mais com aquela nova visão, a ponto de ser a mesma coisa que estar sem as lentes, mas com o agravante de que agora eu percebia muito mais as coisas ruins que as boas. - desabafei, e dessa vez tive certeza de que estava sendo sincero, o que foi estranho porque eu mesmo não sabia que me sentia daquele jeito.
- Mas você não respondeu ezatamente a minha pergunta, quanto tempo dura o efeito?
- Exatamente é com xis, não com ze! - retruquei abruptamente. Erros de português são desconfortáveis...
- Certo, certo, vou me lembrar de escrever certo da próxima vez... agora, pode responder à minha pergunta?
- Posso, mas antes, me diga uma coisa...
- O que foi agora?
- Por que na primeira vez que você perguntou tinha crase e na segunda não tinha? - disse a mim mesmo, e tinha certeza de que aquela pergunta me irritaria um pouco.
- Putz, se não sabe a resposta ou não quer falar, tudo bem, é só dizer! Pode me enganar se quiser, mas não pode enganar a si mesmo! - Falei irritado, e esta última frase me fez pensar se eu queria ou não enganar a ‘si’ mesmo.
- Ok, então. Vou responder àquela pergunta e encerrar por hoje. O negócio é que não tem um tempo determinado. Ao menos eu não acho que tenha. Se o clima está pesado demais, as lentes sofrem mais, e temo que seja por isso que o efeito não dura muito. Mas se o tempo está bom, posso ficar até uma semana com elas que está tudo bem. Uma semana foi o máximo de tempo que já tentei usá-las. - respondi finalmente, com aquela pergunta da crase ainda me incomodando.
- Certo. Então acho que é isso. Agora vou indo porque já está tarde e sua mulher está na cama me esperando.
- Como assim? Pretende dormir com a MINHA MULHER? E a MALDITA CRASE!? Por que uma hora tem e outra simplesmente não tem?
- Ah, vai estudar um pouco de português, agora não tenho mais tempo para ficar de conversa fiada. Bye!
- Volta aqui seu inútil! - mas não adiantava mais esbravejar, já tinha ido embora.