domingo, 7 de agosto de 2011

Tenório (Parte 5: FINAL)



Ele gostava muito de Ana, mais do que achava que gostava. Na época dos acontecimentos aqui narrados ele ainda não sabia que ela teria um papel fundamental em sua vida, pouco antes dela terminar. Ana lhe daria uma missão, ou algo assim. Digamos que lhe daria um motivo para viver. Ou um sentido para sua vida, podemos dizer.
Agora, porém, Tenório apenas buscava ter a intimidade que sempre desejara com Ana. Ou seja, desejava levá-la para sua cama.
- Minha nossa, Tenório, o que eu posso fazer por você?
- Quero um abraço, se não for pedir muito. - Disse Tenório, pondo-se em pé.
- Claro! Vem aqui, vem! - Ana levantou e estendeu os braços na direção dele.
Era tudo o que ele queria. Agora era só não errar o bote. Ele abraçou-a com todo o corpo, envolvendo-a como se ela fosse um enorme travesseiro. Apertou-a contra si e deitou o nariz em seu pescoço. Percebeu que a respiração dela alterou-se instantaneamente - ia ser agora. Tinha de ser...

E foi.

Ana pegou no sono pouco depois que fizeram amor pela segunda vez. Eram mais de duas da manhã de sábado, e Tenório decidiu que não dormiria. Acompanhou o sono da bela Ana, com um sorriso de satisfação no rosto - um sorriso que nem a morte poderia desfazer. Por uns momentos, foi como se nada de ruim pudesse se colocar entre ele a aquela linda mulher a dormir em sua cama.
Levantou-se.
Procurou pelo quarto, ajudado pela pouca claridade que entrava da janela, por um antigo maço de cigarros. Encontrou-os e foi para a varanda. Riu sozinho ao ver os avisos de advertência no verso da caixa. “Como se importasse” - chegou a dizer a si mesmo.
A noite estava agradável. Ele sentou-se à frente de sua casa e acendeu um cigarro. Fazia muito tempo, talvez uns cinco anos, que tinha parado de fumar. Nas primeiras tragadas sentiu sua cabeça girar - não estava mais acostumado à nicotina e às outras mais de quatro mil substâncias tóxicas que havia no cigarro. Começou a pensar, mas não voluntariamente. Apenas deixou sua mente vagar. Milhões de pensamentos e sensações o invadiram em poucos minutos. E cada pouco vinha em sua mente Ana. O sorriso de Ana; Ana dormindo; o jeito de Ana; os cabelos de Ana; o corpo de Ana... De onde vinha tudo isso? - Tenório não sabia.
Resolveu voltar para a cama - sentia necessidade de vê-la. Tocar nela, estar com ela...
Embora não quisesse dormir, não pode manter-se acordado a noite inteira. Seu corpo não aguentou e ele caiu em um sono profundo. Porém, antes de dormir, muitos outros pensamentos e insights aconteceram na mente transtornada de Tenório, e, ao que tudo indica, o que ele pensou naquela noite determinou a forma como ele morreu. Ou melhor, influenciou na maneira pela qual ele escolheu morrer.
Mas isso já é assunto para uma outra história...