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terça-feira, 9 de agosto de 2011
Tenório - Completo
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domingo, 7 de agosto de 2011
Tenório (Parte 5: FINAL)
Ele gostava muito de Ana, mais do
que achava que gostava. Na época dos acontecimentos aqui narrados ele ainda não
sabia que ela teria um papel fundamental em sua vida, pouco antes dela
terminar. Ana lhe daria uma missão, ou algo assim. Digamos que lhe daria um
motivo para viver. Ou um sentido para sua vida, podemos dizer.
Agora, porém, Tenório apenas
buscava ter a intimidade que sempre desejara com Ana. Ou seja, desejava
levá-la para sua cama.
- Minha nossa, Tenório, o que eu
posso fazer por você?
- Quero um abraço, se não for
pedir muito. - Disse Tenório, pondo-se em pé.
- Claro! Vem aqui, vem! - Ana
levantou e estendeu os braços na direção dele.
Era tudo o que ele queria. Agora
era só não errar o bote. Ele abraçou-a com todo o corpo, envolvendo-a como se
ela fosse um enorme travesseiro. Apertou-a contra si e deitou o nariz em seu pescoço. Percebeu que a respiração dela alterou-se instantaneamente - ia ser agora.
Tinha de ser...
E foi.
Ana pegou no sono pouco depois
que fizeram amor pela segunda vez. Eram mais de duas da manhã de sábado, e
Tenório decidiu que não dormiria. Acompanhou o sono da bela Ana, com um sorriso
de satisfação no rosto - um sorriso que nem a morte poderia desfazer. Por uns
momentos, foi como se nada de ruim pudesse se colocar entre ele a aquela linda
mulher a dormir em sua cama.
Levantou-se.
Procurou pelo quarto, ajudado
pela pouca claridade que entrava da janela, por um antigo maço de cigarros.
Encontrou-os e foi para a varanda. Riu sozinho ao ver os avisos de advertência
no verso da caixa. “Como se importasse”
- chegou a dizer a si mesmo.
A noite estava agradável. Ele
sentou-se à frente de sua casa e acendeu um cigarro. Fazia muito tempo, talvez
uns cinco anos, que tinha parado de fumar. Nas primeiras tragadas sentiu sua
cabeça girar - não estava mais acostumado à nicotina e às outras mais de quatro
mil substâncias tóxicas que havia no cigarro. Começou a pensar, mas não
voluntariamente. Apenas deixou sua mente vagar. Milhões de pensamentos e
sensações o invadiram em poucos minutos. E cada pouco vinha em sua mente Ana. O
sorriso de Ana; Ana dormindo; o jeito de Ana; os cabelos de Ana; o corpo de
Ana... De onde vinha tudo isso? - Tenório não sabia.
Resolveu voltar para a cama -
sentia necessidade de vê-la. Tocar nela, estar com ela...
Embora não quisesse dormir, não
pode manter-se acordado a noite inteira. Seu corpo não aguentou e ele caiu em
um sono profundo. Porém, antes de dormir, muitos outros pensamentos e insights
aconteceram na mente transtornada de Tenório, e, ao que tudo indica, o que ele
pensou naquela noite determinou a forma como ele morreu. Ou melhor, influenciou na
maneira pela qual ele escolheu morrer.
Mas isso já é assunto para uma
outra história...
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09:36
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sábado, 6 de agosto de 2011
Tenório (Parte 4)
Tudo o que fazemos e pensamos acontece dentro de um espaço de tempo. Existem aparelhos capazes de medir precisamente o tempo que decorre entre o início de um acontecimento e seu final - são chamados de relógios. Eles podem medir com precisão, por exemplo, quanto tempo um atleta leva para percorrer a distância de cem metros, entre outras coisas.
Há vários tipos de relógios, mas todos marcam o mesmo tempo. E o fato de existir um relógio para marcar o tempo pode fazer com que este mesmo tempo pareça virtualmente maior ou menor, dependendo da situação.
Tenório, por exemplo, não tinha tempo, pois logo iria morrer. E sabia disso. E o fato de ele saber disso fazia com que o seu tempo se passasse ainda mais rápido, embora fosse o mesmo tempo que transcorria para Ana. A diferença é que Ana, por sua vez, não via o tempo passar, tão atolada que estava; imersa em seus próprios dias...
É bom ressaltar que outro problema temporal pelo qual Tenório passava lhe era extremamente cruel: a sós com uma linda mulher, ele precisava de tempo para inventar uma desculpa plausível do porquê de haver um Viagra rolando pelo chão de sua sala.
Tenório teve a impressão de que estava ficando vermelho. Bem, talvez roxo de vergonha. Amaldiçoou mentalmente o jeans velho que estava usando. Como não tinha percebido que o bolso estava furado?
Parecia que o ar sumia dos seus
pulmões e seu estômago deslocava-se dentro de sua barriga, enquanto assistia ao
Viagra caído de seu bolso girar no chão, ao lado de seu pé, sob o olhar
desconfiado de Ana.
- O que é isso? - Perguntou ela,
enquanto inclinava-se para frente para colher o Viagra com uma das mãos.
- Isso o quê? - Tenório respondeu,
enquanto repetia o gesto dela, inclinando-se e ”acidentalmente” esmagando o
comprimido com a sola do sapato.
- Ops! O que é isso? Puxa, acho
que era um remédio... Quero dizer, era o meu remédio!
- Remédio? - Pelo tom da voz de
Ana, ele percebeu que ela devia estar levemente desconfiada.
- Sim! Puxa, que azar, esses
remédios custam uma fortuna! Deve ter caído do meu bolso. - Explicou ele. E era
verdade: o remédio era caro mesmo; uma fortuna, na avaliação de Tenório.
- Você não tinha me dito que
tomava algum medicamento. Este vinho não corta o efeito? - Ana tentava educadamente
encontrar uma forma de ele contar que pílula era aquela. Tentava não ser
invasiva demais.
- Olha, Ana, acredito que deva
cortar um pouco. Só que aqui, com você, sinto-me bem como não me sentia em sei
lá quanto tempo, sabe? Então acho que não me faz tanta falta agora. O remédio,
quero dizer. Tanto que até tinha esquecido de tomar.
- Que bom... fico feliz de estar
aqui com você também. A gente precisa disso de vez em quando...
- Nem me fale! Fazia muito tempo
que não me sentia tão bem sem usar esses remédios para levantar o humor! - Disse Tenório, enquanto dava
um risinho nervoso e tinha a sensação de sentir um calor estranho,
inconveniente e repentino.
- Ah, são para levantar o humor?
- Sim! É que meu médico não me
deu boas notícias ultimamente. Aí me mandou em um psicólogo, que me receitou
isso.
- Engraçado... que eu saiba
psicólogos não podem receitar medicação, só psiquiatras.
- Ahm, bem... é que ele é meu
amigo, e conseguiu que um colega dele, psiquiatra, emitisse a receita, sabe...
- Ah, que sorte a sua!
Tenório tentava contornar a
situação embaraçosa na qual havia se metido. E agora? Tudo estava ruindo. Indo
por água abaixo. Ana poderia levantar, agradecer e ir embora a qualquer
momento. Não! Ele não deixaria isso
acontecer. Não esta noite. Já que não lhe restava tanto tempo, resolveu tomar
medidas drásticas e ativar o “plano D” - de desesperado.
- Ana, eu não pretendia te contar
isso, não esta noite. Mas é que eu vou morrer.
- Ah, eu também vou...
- Não, Ana, você não entendeu.
Quando falei das más notícias que o médico me deu eu me referia a isso. Vou
morrer logo. Muito logo.
- Puxa, Tenório, como assim? Mas
o que...
- Não, Ana, não me faça mais
perguntas. Só queria que você soubesse e visse que sou um homem diferente
agora. E achei que poderíamos passar bons momentos juntos. É isso que quero
para minha vida, entende? Viver ao máximo cada segundo. Aproveitar tudo, pois
amanhã posso não estar aqui.
A expressão de Ana mudou, e agora
que ela parecia seriamente preocupada ele aproveitava-se disso para fazer-se de
coitado e tentar levá-la para cama de uma vez por todas. Enquanto falava, ele
chegou mais perto dela e tomou sua mão. Agora ele precisava dar o golpe final,
e tudo daria certo.
Se é que seria tão simples e
fácil assim...
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09:42
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terça-feira, 26 de julho de 2011
Tenório (Parte 3)
Tenório rodou o comércio de seu
bairro comprando algumas coisas que julgava imprescindíveis para a
concretização de seu plano fatal. Isso incluiu uma nova ida à farmácia para
comprar uma caixa de Viagra - assim a performance estaria garantida. Comprou
também uma cueca novinha em folha, daquelas ‘de perninha’ - como ele mesmo
explicou à vendedora; queria estar bem apresentável na hora ‘H’. Lembrou de
pegar flores quando já voltava para casa, assim causaria uma boa impressão em
Ana.
Quando a hora foi se aproximando,
ele tomou um banho demorado, como não tomava há algum tempo, e vestiu-se com
uma roupa em que se achava mais atraente. O jeans era meio velho, mas era bem
confortável e lhe caía bem. Escondeu cuidadosamente uma pílula de Viagra em um
dos bolsos de sua calça, uma camisinha em outro bolso, e foi para a cozinha.
Quando Ana tocou a campainha, Tenório já estava com quase tudo pronto.
- Olá Ana! Puxa, como você está
linda!
Ana sorriu e foi entrando,
dizendo que era gentileza dele e que ele também estava ótimo, e essas mentiras
que as pessoas dizem para sentirem-se socialmente mais aceitas e não gerar
desconforto aos outros.
A partir de agora era tudo com Tenório,
e nada poderia sair errado. E ele tentava parecer o mais sexy e educado que
podia. Olhava nos olhos dela enquanto falava, tentava parecer inteligente e
engraçado, jogava algumas indiretas muito sutis e procurava prestar atenção a
cada movimento de Ana, na tentativa de decifrar por aí se seu plano estava
dando certo. E dava a impressão que estava tudo perfeito.
Jantaram. Até ali estava tudo
correndo como o planejado. Foram para a sala de estar. Tenório colocou uma
música suave no aparelho de som e sentou-se virado para Ana. Ela fez o mesmo - estava caindo - pensou Tenório. De
acordo com o que ele havia estudado na internet, ela estava bem receptiva. Só
cabia a ele a missão de não estragar tudo.
Tenório estranhava como as coisas
pareciam estar estranhamente em seus lugares. Afinal, nada em sua vida havia
sido fácil até ali. Era estranho. Pensou, então, no médico dizendo-lhe que
teria sorte se chegasse a completar mais um ano de vida. Lembrou da sensação de
nó na garganta, de frio na barriga, da revolta, das lágrimas. Lembrou de si
mesmo dizendo ao médico que não queria passar o resto de sua vida em um
hospital. Sorriu para si mesmo da sensação que havia sentido naquele dia. Lá, pela
primeira vez, sentia uma vontade indescritível de viver... Ana pensou que o
sorriso e os olhos brilhantes dele fossem para ela, e se entusiasmava ainda
mais nas coisas que contava. Só que Tenório não fazia a menor ideia de sobre o
que ela falava. Será que ela contava alguma coisa que tinha acontecido numa
viagem, ou algo do tipo? Buscou rapidamente em sua mente o que deveria fazer
para que ela pensasse que ele prestava atenção a tudo o que ela dizia - tinha
lido alguma coisa sobre isso na internet.
- ... e aí ele caiu no chão! -
Terminou Ana, e começou a rir. Ele começou a rir junto, dizendo:
- Ele caiu no chão! - Ele repetiu
enquanto ria junto, e seu riso era puramente verdadeiro, genuíno.
Repetição. Para uma mulher não
desconfiar que você não prestou atenção em nada do que ela disse, repita a
última frase (ou as últimas palavras), e tente demonstrar alguma emoção
enquanto falar. “Ufa, deu certo...”
Tenório, então, ouviu um barulho
estranho, como se alguma coisa tivesse caído e rolado no chão. Parecia ser um
brinco ou algo semelhante. Ana também pareceu perceber, pois passou a vasculhar
o chão com os olhos enquanto tateava suas orelhas com as mãos.
Mas não era um brinco.
- O que é isso? - Perguntou Ana
curiosa.
Tenório ficou instantaneamente
vermelho. Ali, no chão, próximo ao seu pé de, um comprimidinho azul rolava pelo
chão.
Era seu Viagra.
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23:05
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segunda-feira, 18 de julho de 2011
Tenório (Parte 2)
Tenório mudou-se. Mas não do
verbo mudar-se e sim do verbo transformar-se. Simples assim: mudou-se. E, se o
novo Tenório não tinha mais medo da morte, muito menos medo teria de levar um
fora de uma mulher bonita. Foi então, em meio ao turbilhão de pensamentos que
quase explodia sua cabeça, tentando entender a nova fase (final) de sua vida,
que Ana lhe apareceu.
É bom deixar claro aqui que os
dois já se conheciam de algum tempo. Talvez de uns dois ou três anos, na
avaliação de Tenório, mas eles nunca tinham conversado muito. Ana era a mulher do
tipo com que Tenório sonhava às vezes - especialmente quando acordava molhado -
se é que vocês me entendem; e era por isso que ele não conversava muito com
ela. Era uma espécie de medo. Medo bobo da mulher alta, carnuda, sexy. E morena.
Ah, ela era areia demais para o caminhão dele, mesmo que ele fizesse duas ou
três viagens. E tinha que ser morena...
Só que Tenório, depois de
mudar-se, ficou realmente diferente. E o novo e semijovem (em estado de jovem) Tenório
não titubeou, chegou junto. Ana estranhou um pouco, mas por fim concordou em
jantar com ele. Na casa dele.
Tenório preparou tudo para a
noite fatal. Cada detalhe. Primeiro pesquisou na internet maneiras de levar uma
mulher pra cama no primeiro encontro, depois fez uma listinha do que precisava
e partiu para as compras. Como precisava de camisinhas, já que as que tinha deviam
estar vencidas, o primeiro lugar em que parou o carro foi numa farmácia.
- Do que o senhor precisa? -
Perguntou a linda moça que o atendeu logo na entrada.
- Eu preciso de camisinhas.
- Pois não, qual o senhor deseja?
- Perguntou ela, apontando para um sem-número de marcas que tinha no balcão.
- Puxa, agora você me pegou...
que tamanhos vocês tem?
- Elas costumam ter o mesmo
comprimento...
- Não... que bitola? - Tenório
cochichou a pergunta como se contasse um segredo.
- Bitola?
- É, que largura? - Explicou ele,
enquanto desenhava algo parecido com a letra “c” com o indicador e o polegar, fazendo
a moça corar de vergonha.
Gentilmente, ela explicou a
Tenório que as camisinhas vendidas ali eram de tamanho único, e, quanto mais
explicava, mais vermelha ela ficava. Tenório achou que seria melhor mudar de
assunto.
- Vou levar esse pacote aqui
mesmo. Gostaria também de um perfume para as partes íntimas!
- Como, senhor?
- É tipo um desodorante, só que é
para usar no Zezinho! - Explicou ele, apontando o dedo para as partes baixas,
por assim dizer.
Até ele sair da farmácia, o
vermelhão no rosto da atendente ainda não tinha passado. Ele pensou que seria
bom experimentar uma das camisinhas antes de usar pra valer. Precisava ter
certeza de que iriam mesmo servir.
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12:26
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terça-feira, 12 de julho de 2011
Tenório (Parte 1)
Tenório era um cara comum,
semijovem. Semijovem é alguém que já passou de jovem, mas ainda é quase jovem.
Talvez ele se enquadrasse mais como um homem semijovem em estado de jovem, e
isso era extremamente incomum, para não dizer único. Não é que ser um homem
jovem, ou semijovem (em estado de jovem) seja incomum, mas é incomum ver jovens
(ou semijovens (em estado de jovens)) com o nome Tenório. E Tenório ia morrer. Não
apenas morrer, mas ele ia morrer logo. E ainda por cima era um cara feio. Não
no sentido de não ser bonito, era feio mesmo. Algumas mulheres achavam que ele
era “mais feio que encoxar a avó no
tanque e chamar o avô de corno”; porém outras já achavam ele era um cara comível.
Feio, mas comível, porque era simpático - o que agrada a muitas mulheres. Já Tenório,
é claro, nem desconfiava que pudesse ser do gosto de algumas mulheres, pois, se
desconfiasse que elas o achavam comível, ele é que iria querer comer todas
elas. Mas o caso é que ele realmente ia morrer logo. Pelo que o médico lhe havia
dito, não ia durar muito tempo não. Provavelmente não passaria de um ano. Só
que ele duraria bem menos de um ano, mas nunca poderia imaginar que seria tão
pouco. E nós nunca imaginávamos que tão pouco tempo de vida lhe renderia tantas
histórias. Até hoje, muito tempo depois que ele se foi, há quem conte suas
peripécias mundo afora. E, analisando tudo o que aconteceu desde as más
notícias do médico até o fim da vida, que chegamos à conclusão de que a notícia
de que Tenório ia morrer foi o que o fez, enfim, viver. Tenório, após saber de
sua própria morte, simplesmente mudou-se.
(créditos da imagem: http://exponhoosmeusquadros.blogs.sapo.pt/arquivo/836955.html)
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23:29
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
As rosas não falam...
Brigaram. Era de noite. Foi na cama. Cada um virou para o seu lado e tentaram dormir.
Não conseguiram.
Um deles saiu do quarto. Foi ele. Era sempre ele.
Por fim, chegaram a um acordo, ou quase isso. Ela fingiu que aceitava as desculpas dele, e, pela milésima vez, ele fingiu que acreditava que ela o tinha perdoado. E foi assim que se ‘reconciliaram’.
Pela manhã, despediu-se dela com juras de amor; ela, nada disse. No caminho para o trabalho ele estava transtornado. Passou o dia todo pensando nela. Em tomá-la nos braços e nunca mais soltar. Fazê-la dormir nos seus braços, enredando as mãos em seus cabelos.
Enquanto voltava, ligou para a floricultura, encomendando as flores mais lindas que eles tinham. Ele estava feliz. Ele tinha um plano.
A moça da floricultura achou estranho o telefonema interrompido de forma abrupta, mas caprichou no buquê.
Sofia achou estranho a demora de Carlos naquele dia. Só que, no fim das contas, ele nunca pegou as flores. Nunca as entregou. E Sofia nunca mais o viu.
Acidente de carro.
Carlos teve um último pensamento - ela. Somente ela importava a ele.
Sofia teve remorso, imaginando um futuro que nunca veria, e um perdão que acabou nunca concedendo a quem mais amava.
Segundo: Achei que tinha um segundo, mas acho que esqueci de me lembrar do que era...
[ATUALIZAÇÃO] : Acatei uma sugestão da Aymée, via comentários, e reentitulei o post. Valeu guria!!!!
[ATUALIZAÇÃO] : Acatei uma sugestão da Aymée, via comentários, e reentitulei o post. Valeu guria!!!!
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23:27
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terça-feira, 17 de agosto de 2010
Um Olhar Para o Futuro
Roberto percebeu cedo da manhã que Sandro estava diferente. Parecia que havia algo faltando nele. Algo que não se encaixava. Como os dois eram quase como irmãos, além de colegas de trabalho, Roberto foi ver o que havia de errado.
- E aí, o que você tem?
- Nada. - Respondeu Sandro, obviamente desviando da pergunda.
- Escuta, Sandro - Roberto abaixou a voz - somos amigos há muito tempo, e eu quero saber o que há de errado.
Sandro pensou um pouco, antes de dizer:
- Tudo bem, não tenho porque esconder de você... venha até aqui atrás.
Sandro encaminhou-se à uma sala vazia do escritório. Roberto no seu encalço.
- Estou realmente muito excitado por isso, e um pouco triste também. - Disse Sandro. Roberto abrindo um enorme ponto de interrogação em sua cara. Sandro continuou:
- Eu vi o futuro!
Roberto fez um ar de surpresa incrédula, erguendo uma de suas sobrancelhas grossas.
- É verdade, cara! Eu vi!
- Como?
- Ainda não sei direito. Foi como um sonho, mas eu não estava dormindo. Eu estava deitado, pensando, e de repente aconteceu. De repente me vi deitado em minha cama. Como se estivesse fora de meu corpo, sabe?
- Sei. - Roberto não estava convencido. Nem um pouco.
- Então foi tudo muito rápido. A imagem toda se moveu, e eu ainda me via, mas agora eu estava mais velho. Então vi a data em um jornal que havia sobre a mesa, e percebi, entendi, que estava no futuro!
- Cara, acho que você sonhou. Será que não? - Roberto acrescentou o ‘será’ após perceber a cara de reprovação que Sandro produziu.
- Você não está entendendo... eu realmente vi o futuro. Não sei como, mas estive lá. E o motivo porque estou assim é que não gostei muito de como me vi lá. Eu era um velho triste. Solitário. Sem amigos, sem família. Só de me ver ali, tive vontade de chorar...
- Cara, não leva isso a sério. Isso pode ter sido apenas a tua imaginação. Além do mais, todo mundo aqui gosta de você.
- Na verdade, Beto, depois do que vi, sinto que nada mais importa. Queria poder dormir agora e só acordar depois que tudo passasse...
“Eu vi o que acontecia até chegar naquele ponto. Foi tudo muito rápido, quase de relance, mas eu vi. E sei que vai acontecer. Sinto isso chegando, e não quero passar por isso.”
- Sandro, desencana e aproveita tua vida. O futuro não está escrito em pedra, você faz ele todo dia...
- Não, Beto. Eu sei. Eu vi.
E saiu, deixando Roberto para trás.
Tempos depois, Sandro morreu, antes de chegar aos 40. Infarto, foi o que os médicos disseram. Mas a verdade, e só uma pessoa no mundo sabia disso, é que não foi o coração que o matou, mas a falta dele...
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00:28
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010
O Dia 'D' de Selene
[ADVERTÊNCIA: O conteúdo a seguir é impróprio para menores]
Selene estava cansada de sua vida. Pensava que tinha razões de sobra para isso. Não se sentia amada, não se sentia valorizada, não se sentia livre. Não se sentia viva. Os dias eram sempre iguais, e ela dava graças a Deus quando eles terminavam. Sozinha, não encontrava conforto para suas dores em nada e em ninguém. Também não achava que possuía amigos, apenas conhecidos. E a maioria (ou quase todos) eram do trabalho. E era no trabalho, também, que estava o maior de seus problemas.
Ela havia se mudado há tempos para a cidade grande para trabalhar, vindo de uma situação pobre, mas nunca poderia imaginar que sairia daquilo para uma situação de morte. Era isso, afinal, que sentia: sentia-se morta. Não porque o seu patrão a obrigava a praticar sexo oral nele diariamente, mas sim por não ter forças para lutar contra nada e ninguém. Nada e ninguém. Nada. Ninguém. Era isso.
E no momento em que todos os seus sonhos pareciam-lhe ideias idiotas produzidas por outra pessoa, resolveu colocar um fim em seu próprio sofrimento. Acordou pela manhã, certa de que seria seu último dia. Tomou seu café com gosto - uma última refeição digna para uma moribunda. Pegou a lotação para o trabalho. Chegou ao seu destino quase animada e excitada com aquilo tudo, e era irônico que a expectativa da morte a fizesse sentir-se mais viva. Viva como há muito tempo não se sentia.
- Selene, poderia vir à minha sala por um instante?
Era seu chefe. Seu patrão. Seu algoz.
E seria provavelmente o fim de tudo.
Selene entrou cabisbaixa na sala de seu chefe. Como de costume, todas as persianas estavam fechadas. Logo que entrou ouviu o clique da chave atrás de si. Ajoelhou-se, como sempre. O sujeito gorducho, com a barba por fazer e cheirando a azedo postou-se na sua frente. Com gestos rápidos abriu o zíper das calças e pôs o pênis para fora. Selene olhou para o pequeno e flácido genital do homem, e então para seu rosto. Ele pareceu se assustar com aquilo - ela nunca o havia encarado antes. Ela abriu, então, a boca, e começou a fazer aquilo que sempre fazia.
Ela chupou-lhe o melhor que podia, aguardando o momento certo. Então, quando sentiu-o enrijecer em sua boca, sentiu uma explosão de adrenalina derramando-se por todo o seu corpo, e despejando-se em seus maxilares. Foi então que Selene cerrou seus dentes com toda a força que tinha. Imediatamente sentiu um líquido morno escorrer de sua boca - sangue. E não só o líquido era diferente do que o de costume, como também a sensação. Era tudo novo.
Em meio aos berros, o homem desferiu-lhe um golpe em cheio no queixo. Ela foi jogada no chão pela violência do impacto, e, ao cair, cuspiu fora o pedaço do homem dilacerado e provavelmente algum de seus próprios dentes. Mas não importava: havia acontecido. Aquela mulher moribunda que a olhava no espelho todos os dias - apática e sem vida - havia, finalmente, morrido.
Uma nova mulher estava a caminho.
[Ps: Pensei três vezes antes de publicar este texto. Por fim, prevaleceu a ideia de que este espaço é meu, e faço com ele o que quiser. ;)]
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sábado, 7 de agosto de 2010
Encontros & Desencontros
Estavam perdidamente apaixonados. Eram muito amigos, e se davam muito bem havia muito tempo. Um dia, enquanto estavam conversando, ele sentiu vontade de desabafar com ela:
- Tem uma coisa que eu queria te contar... - Disse ele titubeante.
- Diga. - Respondeu ela interessadamente, pois sempre se interessava pelo que ele pensava ou sentia. Ele era o amor da vida dela. Só que ainda não sabia.
- Precisava te contar isso. Já faz muitos anos que somos amigos, e eu queria que você soubesse que eu me apaixonei...
Quando ele falou “eu me apaixonei”, o mundo dela parou. O brilho do olhar, o tom da voz... ela teve certeza: estavam apaixonados e seriam felizes para sempre. Nada no mundo nunca mais poderia separá-los, e seriam felizes como nunca ninguém sonhou ser no mundo.
- Eu não acredito... - Ela disse - eu sempre fui apaixonada por você, sempre sonhei que um dia ficaríamos juntos! Eu te amo!
Silêncio.
A expressão dele mudou.
Ela enrubesceu, enquanto seus olhos enchiam-se de lágrimas.
Ele estava realmente apaixonado...
Mas não por ela.
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09:58
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segunda-feira, 26 de abril de 2010
Gatos podem voar?
- Mamãe, gatos voam? - perguntou o menino curioso.
- Não, meu filho, eles não podem voar. - respondeu a mãe, com um sorriso no rosto.
- Mas... então eu não entendo! Por que eles perseguem os passarinhos?
A mãe pensou um pouco antes de responder.
- Ah, isso é por que há muitos anos atrás eles podiam voar!
- Sério?
- Sim! Mas há muito tempo mesmo! Naquela época que os dinossauros ainda existiam. Com o tempo eles acabaram perdendo as suas asas.
- Por que, mãe?
- Porque eles eram muito levados. Aí veio Deus, lá do céu, e cortou as asinhas deles!
- Coitadinhos...
- Pois é, meu filho, - disse a mãe, tentando manter o tom de seriedade e se segurando para não rir, - Deus castigou eles, e depois disse que, se eles não se comportassem melhor, tiraria até suas pernas.
O garoto arregalou os olhos e fez um beiço antes de perguntar:
- E Deus faria isso?
- Sim, meu filho, ele já até fez antes!
Um ponto de interrogação formou-se no rosto da criança. A mãe explicou:
- Quando o homem vivia aqui, na época dos dinossauros, alguns meninos começaram a desobedecer as suas mães, até que Deus não agüentou mais e tirou duas pernas do homem. Mas na época o homem andava de quatro, que nem os gatos, então foi forçado a andar como andamos hoje. Depois de muito tempo, os meninos começaram a se comportar tão bem, que Deus perdoou eles e deu a eles braços, ao invés de pernas! Por isso somos como somos hoje!
- Uau! - disse o menino - Então Deus pode perdoar o meu gato e devolver as asas pra ele também?
- Claro, meu filho, mas só se ele melhorar muito mesmo!
- Legal!
Passados alguns dias, a mãe estava fazendo o almoço na cozinha, quando o filho de oito anos entrou correndo pela porta, gritando:
- Mamãe, mamãe, Deus perdoou!!!
- Do que você está falando? - perguntou a mãe assustada.
- O meu gato, Deus devolveu as asas pra ele!
- Como assim?
- Ele acabou de pular da janela do prédio atrás de um passarinho!
Reza a lenda que a mãe nunca mais mentiu para o filho...
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00:49
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quarta-feira, 14 de abril de 2010
A Anatomia do Conto
Eu assistia a um episódio final de um seriado de TV, domingo retrasado. Subitamente, surgiu uma ideia. A ideia de uma estória. Peguei o notebook e comecei a escrever o que tinha em mente, sem saber ao certo como tudo acabaria. Mas eu tinha uma ideia, e achei que fosse boa.
Claro que este conto escrito por mim pode não parecer significativo para quem o leu, mas para mim foi um verdadeiro marco. Nunca tinha escrito uma ficção antes. E nem achei que seria capaz de fazê-lo, para ser honesto. Mas eu me senti ótimo enquanto escrevia. A variedade de sensações supera o ato de ler. Na verdade, acho que para mim foi umas dez vezes mais potente.
Cabe ressaltar aqui que eu sou do tipo que entra na estória. Eu gosto da imersão, seja em um livro, num filme ou até mesmo em uma música. Não gosto de apenas assistir, ler, ouvir; eu gosto de sentir. E eu senti bastante enquanto escrevia...
Mas o grande barato no processo, eu acho, foi criar alguém. Eu poderia contar o que aconteceu com Carolina depois dos fatos narrados, e acredito que poderia fazer isso com certa exatidão, porque eu sei o que aconteceu a ela. Apenas não seria interessante escrever sobre isso. Muito menos ler...
Outra coisa: para quem leu, peço que não leve tão em conta os erros de português. Além de eu não ter me acostumado ainda às novas regras gramaticais, meu Word tem correção automática nos moldes das regras antigas. Não que eu não pudesse alterar isso, mas ainda não tirei meu tempo. Mas garanto que, um dia, eu farei uma revisão um pouco mais meticulosa. Ao menos eu espero.
E, embora eu tenha gostado realmente de escrever, não gostei do produto final. Parece que cada vez que vejo tenho que mudar alguma coisa. E quanto mais o tempo passa, pior eu avalio o texto. Sou um perfeccionista, afinal... mas outra hora escreverei sobre isso. Ou não! fikdik...
Ps: Odeio pessoas que escrevem fikdik depois de uma postagem. O-DE-IO!
Ps²: EU NÃO ME ODEIO!
E, embora eu tenha gostado realmente de escrever, não gostei do produto final. Parece que cada vez que vejo tenho que mudar alguma coisa. E quanto mais o tempo passa, pior eu avalio o texto. Sou um perfeccionista, afinal... mas outra hora escreverei sobre isso. Ou não! fikdik...
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Ps²: EU NÃO ME ODEIO!
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quinta-feira, 8 de abril de 2010
Finalizando...
Bem, postei meu primeiro conto aqui no blog (o primeiro que escrevi, na verdade) na medida que ia finalizando as ideias. Fiz, depois disso, uma parca revisão ortográfica, reescrevi umas poucas coisas, e publiquei-o no Scribd. Quem quiser pode conferir e baixar lá. Aliás, eu aconselho quem não conhece a conhecer o Scribd. Lá é possível encontrar praticamente de tudo. É uma espécie de compartilhador de documentos de texto. Além disso, para criar uma conta é totalmente grátis, rápido e indolor!
Ah, e aproveitei para linkar o texto completo aí embaixo também...
Enjoy, if you want!
Conto de Carolina
às
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terça-feira, 6 de abril de 2010
O Conto de Carolina - Parte III (Final)
ANTES DE LER...
[LEIA A PRIMEIRA PARTE LOGO MAIS ABAIXO OU CLIQUE AQUI]
[LEIA A SEGUNDA PARTE IMEDIATAMENTE ABAIXO OU CLIQUE AQUI]
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[LEIA A SEGUNDA PARTE IMEDIATAMENTE ABAIXO OU CLIQUE AQUI]
- Bem, mas você ainda não sabe o que vim fazer aqui, e imagino que esteja curiosa a esse respeito - afirmou o homem de óculos que estava sentado do outro lado da mesa da cozinha, o mesmo que havia chacinado a família de Carolina há quarenta anos atrás. Carolina engoliu em seco enquanto ele continuava seu discurso.
“O caso é que eu realmente queria ter matado a todos na época. Minha intenção era a de que não sobrasse ninguém para contar a história, mas eu cometi um erro, e esse erro acabou custando muito caro. Eu simplesmente não percebi que você estava naquele quarto. Estava pilhado demais eu acho.”
“Mas é como eu te disse, esse erro acabou me custando caro demais. Para começar, eu pensei muito em terminar meu serviço. Fiz inúmeros planos, mas eram todos muito falhos. A polícia estava sempre vigiando. Eles logo te colocaram em uma ótima família, isso por causa do grande apelo da mídia eu acho... mas enfim, você era um objetivo muito distante.”
“O tempo foi passando, a poeira foi baixando, e eu caí em mim... caí num buraco no qual não conseguia ver o fundo, não conseguia atingir o fundo, por mais que desejasse...”
Quando ele falou da parte do poço, Carolina conseguiu imaginar como ele dizia ter se sentido, porque ela mesma se sentira assim por muitos anos a fio. Mas ela não acreditava naquelas palavras. Elas eram frias e sem emoção, como se aqueles sentimentos a que ele se referia pertencessem a outra pessoa, já que ele nunca seria capaz de sentir algo assim. Mas ele seguiu com seu discurso, ignorando os olhos incrédulos e lacrimosos de Carol.
- Foi como um pesado e doloroso insight para mim. Comecei a ter sentimentos de culpa e medo, algo que nunca pensei que fosse me acontecer. Eu tinha pesadelos horríveis enquanto nem mesmo dormia, e, se dormia, eles eram dez vezes piores.
“O que eu quero dizer, o que vim aqui pra te dizer, é que eu me arrependi.”
Carolina não podia acreditar no que estava ouvindo. Aquilo não podia ser verdade! Ele era um assassino! Um mentiroso! Um animal perverso! Isso não estava acontecendo, era apenas um sonho. Não, era um pesadelo, uma brincadeira de mau gosto.
Seu corpo já não a obedecia mais, começava a tremer incontrolavelmente, enquanto por sua mente passavam xingamentos e blasfêmias que nunca fora capaz de proferir em voz alta. Lágrimas agora escorriam de seus olhos, e seu linguajar não passava de um balbuciar de palavras trêmulas.
- Carol, acalme-se, isso não ajuda em nada. Além disso, eu não espero que você me perdoe, eu apenas queria... ACALME-SE!
Aquilo era a gota d’água. Descontrolada, ela afastou-se dele, derrubando a cadeira no chão e batendo seu quadril contra a pia da cozinha, as mãos cerradas em punhos sobre o rosto encharcado, a faca em riste. Era incapaz de controlar os tremores quase convulsionantes.
- Seja racional, pelo amor de Deus! Seu marido e seus filhos estão chegando, e você não gostaria que eles vissem nada disso! Não gostaria que nada acontecesse a eles...
Essas últimas palavras trouxeram Carolina de volta à terra. A imagem de seu marido e de seus filhos veio instantaneamente à sua mente. Como ele ousava citá-los? Supor que algo poderia acontecer a eles? A tremedeira diminuiu, e ela lentamente abaixou as mãos ainda cerradas Seus olhos estavam arregalados, a boca aberta de pavor como se pronunciasse alguma vogal inaudível, o lábio superior arcado revelando terror e nojo ao mesmo tempo.
O homem que se autoentitulava Afonso também estava de pé, e movendo-se em sua direção. Já havia retirado a cadeira do caminho, acomodando-a gentilmente ao lado. Enquanto andava, seguia falando calma e pausadamente. Será que finalmente ele terminaria a tarefa iniciada há tantos anos atrás?
- Olha, eu não tenho como te explicar porque fiz aquilo. Eu tinha meus motivos, mas não quero me justificar, porque não há como justificar o injustificável. Agora eu só quero a justiça... custe o que custar.
Afonso ficou de frente para Carolina, há poucos centímetros de distancia, e a faca, apontada diretamente para seu abdome, quase o tocava.
- Você pode fazer três coisas agora, - disse ele - a primeira opção é me deixar sair daqui e continuar vivendo como se nada nunca tivesse acontecido, como se eu nunca tivesse aparecido. Não acho que você fará isso. Eu não faria. Sua segunda opção é pegar este telefone que você carrega aí com você e ligar para a polícia, e é uma boa opção, eu diria. Se você fizer isso, eu serei preso, e você não será uma assassina. Mas eu espero que você escolha a terceira opção... e enfie esta faca diretamente aqui... - disse ele, apontando para seu próprio peito com o dedo indicador - sim, eu gostaria disso, seria mais fácil para mim; a solução dos meus problemas.
Ela o encarava olhos nos olhos, e não sabia de onde tirava forças para fazer isso. A faca firme em sua mão, a adrenalina em seu pico máximo. Cada centímetro do seu corpo desejava desferir aquele golpe, mas não conseguia. Não era uma assassina, afinal. Não tinha o que era preciso para se tornar uma, mas também não tinha condições emocionais ou físicas de abaixar aquela faca.
- Eu pensei que fosse ser difícil para você, e talvez eu tenha algo comigo que possa te ajudar a tomar a decisão certa. - enquanto ele falava, levou a mão esquerda às costas para pegar algo, e a imagem de uma faca desenhou-se na mente de Carol. O movimento deve ter sido muito rápido, pois, sem ela perceber o que ele havia feito, sentiu o impacto em sua barriga, um impacto por muito tempo desejado, algo que ela sempre quis saber como era. Sim, no fundo ela sempre desejou saber o que seus pais haviam sentido no momento de sua morte. Num reflexo instintivo, livre de qualquer pensamento, toda a tensão que sentia, toda a adrenalina que fervia em suas veias, toda a sua força e a sua alma canalizaram-se para sua mão direita, que desferiu um golpe fatal no flanco esquerdo de Afonso.
Com o susto, ela largou a faca, que estava enterrada por inteiro na barriga dele. Incrédulo, ele olhou da faca para os olhos de Carol, e o rosto dele espelhava um sentimento que ela não soube dizer o que era. Aos poucos voltando a si, ela escutou um som familiar, e tremeu. Procurou pelo ferimento que ele a infligira, mas não o encontrou. Em seu lugar, escondido no interior do bolso de seu avental, ainda tremendo e gritando, havia um celular. Não uma faca, mas um maldito celular!
Olhou novamente o homem sangrando, escorado à mesa, e percebeu que em sua mão direita havia uma fotografia antiga, o retrato de um casal que ela imediatamente reconheceu: eram seus pais, sorridentes, no preto e branco daquela foto desgastada.
Afonso caiu no chão, e ali, deitado, com a vida por um fio,disse:
- Obrigado Carol... obrigado minha irmã.
Seu rosto expressava um misto de gratidão e satisfação. Deve ter sido a última coisa que ele sentiu.
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
O Conto de Carolina - Parte II
[ANTES DE LER, LEIA A PRIMEIRA PARTE NO POST LOGO ABAIXO, OU CLIQUE AQUI]
Carolina encarou seu algoz, ele parecia ter a mesma idade de seu marido. Era grisalho, de cabelos curtos, rentes a cabeça, olhos claros. Usava um óculos bifocal de armação grossa e com aspecto antigo, e vestia um suéter de meia estação, de cor cinza-claro. Um homem que, em outras circunstâncias, poderia parecer até atraente. Seus olhos eram vazios de alegria ou tristeza, e ele estava de mãos vazias.
- Por favor, sente-se. - pediu gentilmente o homem. - Meu nome é Afonso. Não precisa dizer o seu, eu a conheço muito bem Carol, melhor do que você imagina. Não vai se sentar?
Contrariando seus músculos e seu corpo cheio de adrenalina, ela sentou-se à mesa que se interpunha entre os dois, a mesa redonda da cozinha. Era a única coisa que os separava naquele momento. Ela ainda segurava a faca em sua mão, e a segurava tão firme que fazia a carne de sua mão empalidecer ainda mais.
- O q-q-quê...
- O que eu estou fazendo aqui? Ora, Carolina, presumo então que você já tenha deduzido quem eu sou? Bem, você nem faz ideia de quem eu sou, mas sabe o que fiz no passado. Sabe que fui eu, e isso já é alguma coisa.
Carolina foi invadida por um sentimento louco de enfiar sua faca no coração daquele homem. A adrenalina inundava seu corpo, deixando todos os sentimentos à flor da pele. Se aquela mesa não existisse, nada a impediria de enfiar cada centímetro de aço que conseguisse em seu peito. Mas ela estava sentada do outro lado da mesa, há pouco mais de um metro de distancia. E ele continuava falando.
- Não foi difícil te localizar depois que queimei a casa. Na verdade, você estava em toda a mídia. O problema mesmo foi a caça às bruxas promovida pela polícia depois dos... vamos dizer... acontecimentos.
“Eu era jovem na época, tinha apenas dezessete anos, e isso era um ponto a meu favor. Primeiro porque no Brasil só se vai pra cadeia quem é de maior, e segundo porque atribuíram o meu crime a alguém com experiência. Realmente sempre subestimaram os jovens nesse país. Você já tinha reparado nisso?”
Cada palavra proferida por aquele demônio em forma de gente era como uma lâmina a penetrar na alma de Carolina. Doía ver como aquele verme era capaz de ficar sentado ali, calmamente agindo como se nada tivesse acontecido. Como se o seu único erro fosse algo semelhante a roubar uma barra de chocolate no supermercado. Ele era um psicopata, um animal sem sentimentos, um demônio.
Carol viu a si mesma pulando por cima da mesa, a faca em punho, partindo para cima dele. Com dificuldade, usando as duas mãos, conseguiu enfiar a faca em seu peito, e então não havia mais resistência. A faca movia-se sozinha em sua mão, levantando jatos de sangue cada vez que saía da carne dele. Como um maestro comandando uma orquestra sinfônica, ela repetia o movimento tão violentamente, com tanta força, que seu braço começava a doer. Mas não perdia a força. Era a fúria divina manifestada em seu corpo. A adrenalina pura. O sangue quente que jorrava do corpo do animal era como um novo batismo. Era libertador. Misturando-se às suas lágrimas, misturando-se ao seu próprio sangue, o sangue de muitas feridas abertas há muitos anos, que nunca conseguiram cicatrizar. Era a justiça. Era o clamor de dezessete almas impulsionando sua mão. Era o que ela sempre tinha desejado no fundo de sua alma atormentada, tudo o que ela sempre quis. Só que melhor...
Mas era apenas a sua imaginação, ela permanecia sentada, exatamente como ele mandara.
O canalha não parava de falar. Quanto mais ele falava, mais o sangue de Carolina fervia. Por que ele falava tanto? Por que não fazia o que tinha vindo fazer de uma vez por todas? O que ele pretendia, afinal?
às
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domingo, 4 de abril de 2010
O Conto de Carolina
Carolina estava na cozinha. Picava alguns legumes para o almoço. Usava uma faca de lâmina grande, o que lhe causava arrepios. Parecia bobagem, mas não era. Fazia quarenta anos que ali, naquela mesma casa, havia acontecido uma tragédia. Um homem misterioso entrou, no meio da noite, e matou quase todos na casa usando uma faca semelhante àquela. A única sobrevivente havia sido uma garotinha de sete anos de idade, chamada Carolina.
O assassino havia entrado, camuflado pela noite sem luar, e passado de quarto em quarto, usando sua faca. Silenciou cada hóspede desavisado que dormia sua última noite de sono. Ao todo foram dezessete mortes no casarão da família, e as vítimas eram nada mais nada menos que todos os parentes de Carolina, ao menos os próximos. Seus pais, seu irmão, sua irmã, seus tios e primos. Após a matança, não contente em destruir todos, ele espalhou um galão de gasolina pela casa e ateou fogo.
Carolina não conseguiria ser precisa ao tentar explicar como havia escapado. Ela lembrava de estar dormindo com seus pais no quarto de hóspedes, no andar térreo. Lembrava da luz do fogo que vinha de toda a parte, e de tentar fugir daquilo tudo. Quando se deu por conta, já estava do lado de fora da casa, na rua, que estava repleta de gente, atraída pela casa que pegava fogo, iluminando a noite seu luar.
Agora aquela senhora, de quarenta e sete anos, estremeceu mais uma vez com a faca na mão. Lembrou as noites sem fim em que esperava que o assassino voltasse para terminar o serviço. E lembrava que, depois de um tempo, passou a desejar que acontecesse.
Com o tempo, foi tocando a vida, até que descobriu o amor. A vida foi ficando mais fácil, a família foi acontecendo novamente em sua vida. Ela e o marido decidiram reconstruir a antiga casa, e as sombras do passado nunca mais a tinham atormentado. Ao menos era isso que os outros pensavam. No fundo, a sombra nunca a deixara. As feridas nunca haviam se fechado completamente.
Sozinha, fazendo o almoço para o marido e o filho mais velho, que voltariam do trabalho, e o filho mais novo, que chegaria da escola, ela sussurrou consigo mesma, como fazia de costume:
- Eu queria que você visse que todo o mal que você me fez não foi o suficiente para me destruir. Eu ainda estou aqui. Ainda viva. Vitoriosa.
Como acontecia às vezes, sentiu como se alguém fosse lhe responder. Sentiu como se o assassino estivesse há alguns metros atrás dela, escutando. Não eram raras as ocasiões em que ela se sentia assim, e esses pensamentos a faziam arrepiar.
Mas desta vez aconteceu algo diferente, ela ouviu uma respiração pesada assim que parou de falar, algo como um suspiro rouco. Perplexa, ficou paralisada, desejando que fosse apenas o seu marido que chegava mais cedo do serviço. Mas não era.
- Eu estou aqui. - disse uma voz serena e rouca atrás dela.
Sim, era ele. Não havia dúvidas. O coração pareceu parar de bater, a respiração parou, o corpo não mais lhe obedecia. Finalmente, as preces que fazia quando menina seriam atendidas. Ele havia voltado para terminar o serviço. Com dificuldade, ergueu a cabeça, e, ao olhar para frente, viu o reflexo de um homem na janela da cozinha.
- Eu pensei muitas vezes em vir atrás de você, - disse o reflexo do homem na janela - e em terminar o que comecei naquela noite.
O sangue, que parecia ter desaparecido há instantes atrás, subiu à sua cabeça. Involuntariamente sua mão cerrou-se em volta da faca que segurava. Antes mesmo de perceber ou pensar fazer qualquer coisa, já estava virada de frente para o seu carrasco, fitando-o com os olhos marejados de lágrimas. Lágrimas que eram em parte tristeza, mas na maior parte ódio e rancor. As feridas, enfim, estavam todas abertas.
às
23:32
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